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Álcool na maturidade: mulheres concentram maior alta na taxa de mortalidade no Brasil
20/04/2026 09h49
O consumo de álcool entre as novas gerações mantém os profissionais de saúde em alerta, especialmente pelo avanço do uso entre as meninas. Contudo, há outro sinal de alerta que exige atenção: as mulheres com mais de 55 anos aparecem como as principais vítimas da mortalidade associada ao álcool no Brasil.
De acordo com o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), entre 2010 e 2023, os óbitos nesse grupo etário aumentaram 51%, sendo a única faixa etária que registrou aumento de mortalidade relacionada ao uso de álcool no período analisado. Esse crescimento foi liderado pelas mulheres, com um salto de 60% (de 8.441 para 13.532), superando o índice registrado entre os homens de 42% (de 18.835 para 28.099).
Ainda segundo os dados, as internações de mulheres também aparecem com números alarmantes. Aquelas com 55 anos ou mais apresentaram o maior número de hospitalizações, com crescimento de aproximadamente 98% (de 31.358 para 61.961) entre 2010 e 2024; já entre os homens foi registrado um aumento de 73% (de 55.081 para 95.262).
Sofrimento psíquico e sobrecarga ao longo da vida ajudam a explicar o aumento do consumo
Fatores como a gestão das demandas cotidianas e do trabalho ao longo da vida contribuem para o aumento do alcoolismo na população feminina acima dos 55 anos. A disparidade de gênero na divisão do trabalho invisível corrobora essa pressão; dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022 indicam que mulheres investem cerca de 9,6 horas por semana a mais que homens em tarefas do lar e cuidados interpessoais.
Ao todo, elas investiram 21,3 horas semanais nessas atividades, enquanto os homens contribuíram com apenas 11,7 horas. Ao longo de um ano, essa diferença representa 1.118 horas — o equivalente a 47 dias inteiros — de trabalho não remunerado para as mulheres, contra apenas 23 dias para os homens.
Para a médica generalista do Centro de Acolhimento e Atenção Integral sobre Drogas (CAAD) Vitória, Clara Murari, esta carga acumulada de opressões e jornadas múltiplas, no esforço constante para conciliar carreira e família, muitas vezes impulsiona o uso do álcool como uma tentativa de alívio para o esgotamento.
“Somando isso à pressão estética do envelhecimento e a situações de violência, por vezes estruturais, não há como ignorar o estresse crônico ao qual estão submetidas e que, muitas vezes, para o qual o uso de uma substância psicotrópica surge como uma estratégia — desadaptativa — de enfrentamento. Neste caso, considerando que o álcool tem uma alta aceitabilidade social e um acesso muito facilitado, ele ganha esse espaço importante e tão preocupante”, explica a médica.
Rede Abraço Mulher
Para enfrentar as vulnerabilidades multidimensionais que atingem o público feminino, o programa estabeleceu a Rede Abraço Mulher.
A Rede Abraço Mulher é uma estratégia de atenção e acolhimento pioneira, desenhada com foco na perspectiva de gênero. A iniciativa é destinada a mulheres e meninas a partir de 14 anos em situação de vulnerabilidade associada ao uso problemático de álcool, outras drogas e comportamentos aditivos, como jogos e apostas.
“É justamente diante dessa realidade das mulheres com mais de 55 anos e de muitas outras, que o Espírito Santo apresentou essa resposta inovadora: a Rede Abraço Mulher, uma estratégia pública que reconhece as especificidades do cuidado feminino, estruturando ações de prevenção, acolhimento, tratamento e reinserção social com olhar sensível às trajetórias de vida das mulheres. Mais do que um programa, é a afirmação de que o Estado precisa estar presente, de forma humana, técnica e responsável, cuidando de quem, por tanto tempo, foi invisibilizada”, finaliza o subsecretário de Estado de Políticas sobre Drogas e coordenador da Rede Abraço, Carlos Lopes.