- SOBRE
- Rede Abraço
- Publicações
- Indicadores
- COESAD
Christian Dunker conecta pressões do cotidiano ao avanço das compulsões
26/06/2026 17h05 - Atualizado em
26/06/2026 17h14
O adoecimento mental e as pressões da vida moderna deram o tom da conferência magna de abertura da 5ª Semana Estadual de Políticas sobre Drogas do Espírito Santo, promovida pela Rede Abraço. Convidado central do evento, o psicanalista Christian Dunker traçou um diagnóstico sobre como as pressões da rotina contemporânea transformam o uso de substâncias e outras compulsões em mecanismos de fuga.
"Hoje, vivemos uma gramática do esgotamento, dominada pelo burnout e pela depressão. Diante da pressão por uma 'fórmula de vida' ideal, as substâncias surgem como ferramentas de automedicação. O indivíduo passa a usar o álcool ou o ansiolítico pensando: 'preciso me acalmar' ou 'preciso dar conta'. Essa busca por uma descompressão imediata durante a semana é, na verdade, um sinal de alerta de que a nossa relação com o trabalho e com o tempo está adoecida."
Com o tema "Uso de substâncias e outras compulsões na contemporaneidade", Dunker conectou a teoria psicanalítica ao cotidiano do público presente, nessa quarta-feira (24) e quinta-feira (25), no Cineteatro da UVV, em Vila Velha. Ainda em sua fala, o especialista detalhou como a velocidade e as exigências do estilo de vida moderno funcionam como gatilhos para o desenvolvimento de comportamentos aditivos e outras formas de sofrimento mental, ampliando o entendimento do inconsciente de forma acessível e crítica.
"As substâncias e as novas compulsões funcionam como objetos tão poderosos que, ao colonizarem a subjetividade, roubam a autonomia do sujeito. O diagnóstico não pode ficar preso a narrativas morais ou puramente biológicas; precisamos entender o discurso terapêutico por trás disso. Quando olhamos para o desafio de reverter o avanço das bets, por exemplo, precisamos compreender que as pessoas se engajam na aposta porque ali existe um ato desejante, uma busca por agência, e não apenas um erro de cálculo”, explicou Dunker.
Outro destaque do primeiro dia foi o debate dedicado aos impactos e às estratégias terapêuticas para o vício em jogos de aposta, tema que tem acendido o alerta vermelho na saúde e na economia das famílias brasileiras. A discussão foi conduzida pelo psiquiatra Leonardo Carriço (SP), colaborador do Instituto de Psiquiatria da USP (PROAMITI) — referência no tratamento de transtornos de impulsividade —, que alertou para a gravidade desse novo cenário.
"O avanço do mercado de apostas on-line transformou o perfil das compulsões no Brasil, operando de forma muito agressiva dentro da rotina das pessoas. Não estamos falando apenas de uma perda financeira, mas de um sofrimento psíquico profundo que desestrutura famílias inteiras. Tratar o transtorno do jogo exige estratégias terapêuticas específicas, baseadas em evidências, e o fortalecimento de uma rede pública de saúde preparada para acolher essa nova e urgente demanda", destacou Leonardo Carriço.
A produção científica capixaba também ganhou protagonismo no evento com a apresentação dos professores da UVV, Thiago Hyra e Pablo Ornelas. Os pesquisadores expuseram os resultados de um estudo detalhado sobre a mortalidade relativa ao uso de substâncias psicoativas e os impactos reais das políticas públicas de drogas no território.
Segundo os professores, mapear os dados de mortalidade nos permite enxergar a realidade sem filtros e entender onde o Estado mais precisa intervir. Apresentar essa pesquisa mostra que as políticas públicas funcionam melhor quando são baseadas em evidências científicas. O objetivo com este estudo é fornecer subsídios teóricos e práticos para que as redes de cuidado, como a Rede Abraço, consigam otimizar suas ações e salvar vidas de forma cada vez mais assertiva.
Dia 2
O segundo dia da 5ª Semana Estadual de Políticas sobre Drogas do Espírito Santo foi marcado pela busca de soluções práticas, conectando experiências internacionais, projetos capixabas e os debates mais recentes sobre o cenário jurídico e de saúde brasileiro. A programação percorreu desde a promoção da saúde mental nas escolas até o painel de encerramento sobre a regulamentação da cannabis medicinal no País.
Prevenção nas escolas e a força do esporte e da cultura local
A programação da manhã trouxe uma perspectiva global para o ambiente escolar com a participação da médica e especialista Dra. Karla Mayerling Paz Ledesma. Em sua fala, ela defendeu que a escola precisa ser um espaço de acolhimento e proteção social antes mesmo de qualquer abordagem sobre substâncias.
"A promoção da saúde mental no ambiente educacional não se faz com palestras isoladas sobre os perigos das drogas, mas com a construção de ambientes escolares que acolham as vulnerabilidades emocionais dos estudantes. Quando fortalecemos os fatores de proteção na infância e na adolescência dentro da escola, criamos redes de resiliência capazes de prevenir não apenas o uso prejudicial de substâncias, mas o adoecimento psíquico precoce", pontuou Karla Mayerling.
Logo em seguida, a mesa-redonda de boas práticas locais demonstrou como essa teoria ganha vida no território capixaba. O debate uniu a potência cultural do Instituto Serenata de Favela, o fortalecimento de fatores socioemocionais do Centro de Prevenção Comunitária ao dinamismo do projeto “Skate de rua, saúde e bem-estar”, evidenciando o esporte, a educação e a arte como ferramentas fundamentais de inclusão social e cuidado territorial.
Governo do ES e Rede Abraço premiam projetos de prevenção às drogas com R$ 420 mil
Ainda durante o encontro, foi realizada a solenidade de premiação aos os projetos vencedores do Edital de Práticas Pedagógicas do Governo do ES e Rede Abraço. A entrega contou com a presença do subsecretário de Estado de Políticas sobre Drogas e coordenador da Rede Abraço, Carlos Lopes.
A premiação soma um total de R$ 420 mil e irá fomentar 42 práticas pedagógicas que trabalham educação e prevenção ao uso de álcool e outras drogas em escolas públicas das redes Municipal e Estadual de Ensino no Estado. Cada projeto selecionado receberá o valor de até R$ 10 mil.
“O objetivo do Edital de Práticas Pedagógicas é incentivar os professores da rede pública do nosso Estado, a desenvolverem junto aos seus alunos, ações, projetos e iniciativas que estimulem a educação e o acesso à informação sobre a temática do álcool e outras drogas. A proposta é educar e esclarecer para prevenir”, informou Lopes.
Ética e acolhimento familiar no centro do debate
No período da tarde, as discussões se voltaram para a complexidade do ambiente familiar e os dilemas éticos que atravessam as políticas públicas de cuidado. A mesa foi composta pela Dra. Alessandra Calixto (RS), presidente da ABEAD (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas), e pela Dra. Elda Bussinguer (ES), pós-doutora em Saúde Coletiva e membro do Conselho de Ética Pública do Estado.
A presidente da ABEAD enfatizou a necessidade de o sistema de saúde abraçar a família dos indivíduos que enfrentam o uso problemático de substâncias.
"O tratamento da dependência química e de outras compulsões não pode focar apenas no indivíduo; ele exige o acolhimento e o manejo clínico da estrutura familiar. A família frequentemente adoece junto e, sem o suporte técnico e emocional adequado, ela perde a capacidade de ser um elo de cuidado. Precisamos instrumentalizar essas famílias com informação científica e empatia para que se tornem aliadas no processo de reabilitação", disse Alessandra Calixto.
Já Elda Bussinguer trouxe a dimensão bioética e da saúde coletiva para a formulação das ações públicas, lembrando que a dignidade humana deve orientar todas as decisões do setor.
"A ética pública na saúde coletiva nos impõe o dever de desenhar políticas sobre drogas que respeitem a autonomia e a dignidade do sujeito. Não podemos permitir que o estigma ou o julgamento moral direcionem o cuidado. A nossa responsabilidade, enquanto formuladores e conselheiros, é garantir o acesso universal a tratamentos baseados em evidências, onde o direito à saúde e os direitos humanos caminhem rigorosamente juntos", sublinhou Elda Bussinguer.
Encerramento debate o panorama da cannabis medicinal
O encerramento do evento abordou um dos temas mais aguardados e de maior repercussão na atualidade: a “Regulamentação da Cannabis medicinal no Brasil – panorama atual”. O painel uniu a perspectiva clínica e a segurança jurídica, com a participação da médica integrativa e pesquisadora baiana Mariane Ventura e do advogado pernambucano Sergio Urt, presidente da Comissão de Direito da Cannabis Medicinal da OAB/PE.
Mariane Ventura abordou os avanços científicos e os critérios clínicos que justificam a terapia canabinoide no manejo de dores crônicas, ansiedade e refratariedades neurológicas.
"A cannabis medicinal hoje é uma realidade amparada por robusta literatura científica, oferecendo qualidade de vida para pacientes que não encontravam respostas nas terapêuticas convencionais. O grande desafio atual da medicina integrativa é democratizar o acesso e garantir que a prescrição seja feita de forma segura, individualizada e livre de preconceitos, tratando o paciente em sua totalidade", ressaltou a médica Mariane Ventura.
Finalizando as discussões, o advogado Sergio Urt traçou o panorama regulatório brasileiro, apontando os caminhos e gargalos burocráticos e jurídicos que o País enfrenta para consolidar o acesso legal e o fomento à pesquisa.
"O cenário jurídico da cannabis medicinal no Brasil avançou significativamente, mas ainda enfrenta uma assimetria regulatória que gera insegurança para médicos, pacientes e associações. Discutir a regulamentação sob a ótica do Direito é buscar a pacificação de entendimentos que garantam a segurança jurídica do autocultivo assistido e das decisões judiciais, transformando o que hoje é uma via de exceção em uma política pública de saúde de acesso pleno", apontou o advogado Sergio Urt.
"O balanço desta 5ª Semana é extremamente positivo. Conseguimos trazer para o centro do debate temas urgentes e atuais, e ver as plenárias lotadas durante os dois dias comprova que a sociedade capixaba quer discutir a prevenção de forma séria e sem preconceitos. Saímos fortalecidos e com a certeza de que a Rede Abraço está no caminho certo", avaliou Carlos Lopes, coordenador da Rede Abraço.
Sobre a Semana Estadual
A Semana Estadual sobre Drogas é realizada anualmente na quarta semana de junho conforme foi instituída na Lei nº 13.840, de 05/06/2019, em seu Art. 19 e seu objetivo é intensificar ações para a difusão de informações sobre os problemas decorrentes do uso de drogas. Também busca promover eventos para o debate público sobre as políticas sobre drogas; divulgar iniciativas, ações e campanhas de prevenção do uso indevido de drogas, entre outros.
Informações à Imprensa:
Assessoria de Imprensa da Rede Abraço
Thiago Almeida / Julia Paranhos
(27) 3636-6229 / 99780-3017 / 99969-4160
thiago.jesus@seg.es.gov.br
Fotos: Julia Paranhos