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Moldando novas histórias: Projeto "João de Barro" celebra a liberdade criativa por meio do forno e da argila
29/05/2026 11h15
No coração da Penitenciária de Segurança Média II (PSME II), em Viana — unidade que é referência exclusiva para o atendimento à população LGBTQIAPN+ no Espírito Santo —, o barro ganha formas, cores e, acima de tudo, novos significados.
O projeto "João de Barro - Mãos que constroem", um dos vencedores do Edital de Boas Práticas da Rede Abraço, certificou 15 pessoas privadas de liberdade, celebrando a conclusão de um ciclo que une arte, terapia e capacitação profissional. A formatura aconteceu nesta quinta-feira (28), em Viana.
A iniciativa utiliza a argila como um "intercessor para o trabalho psi". Mais do que aprender uma técnica artesanal, os participantes passam por um processo terapêutico profundo, onde a modelagem serve de suporte para a expressão de subjetividades e o fortalecimento da saúde mental dentro do ambiente prisional.
Ao ser contemplado pelo Edital Boas Práticas da Rede Abraço, a PSME II, que já possuía espaço adequado para execução do projeto, com assentos, quadro branco, televisão, projetor multimídia e forno adequado para a queima das peças cerâmicas, conseguiu ampliar a sala, com a abertura de um novo cômodo para instalação de tanque para lavar e modelar as peças.
Segundo a gestora Ines Sundehus, o perfil das pessoas privadas de liberdade é marcado por vulnerabilidades que vão da dependência química ao estigma social. Para ela, o Edital de Boas Práticas funciona como um divisor de águas nesse cenário, oferecendo esperança onde antes havia apenas o abandono.
“Os resultados demonstram o poder de uma gestão pública executada com respeito e compromisso. Com as ações da Rede Abraço, reduzimos significativamente os índices de automutilação e o sofrimento psíquico dentro das unidades”, destaca. Ines ressalta, ainda, a queda no uso de medicamentos controlados — as chamadas ‘drogas lícitas’ —, que deixaram de ser a única via de escape para o alívio de traumas emocionais.
O ciclo da transformação e o protagonismo de Kleyton
O processo de aprendizado é intenso e técnico, durando cerca de duas semanas para cada ciclo de produção. Os alunos acompanham desde o preparo da massa e a modelagem manual até as etapas de secagem, a primeira queima em forno industrial, a aplicação de produtos de acabamento e a queima final.
O domínio dessas etapas exige paciência e precisão, características que se tornam aliadas no processo de ressocialização.
Entre os novos artesãos está Kleyton Correa Bastos. Sem contato prévio com a arte antes do curso, ele não apenas se identificou com o ofício, como se tornou uma peça-chave na logística do ateliê instalado na unidade.
Pela sua habilidade e responsabilidade, Kleyton foi designado para operar o forno - uma das etapas mais críticas e técnicas do processo. "Tanto na montagem, quanto na queimagem e no preparo, hoje eu consigo ter o domínio da situação", afirma o aluno com orgulho.
Para ele, a cerâmica funciona como um exercício de paciência. "Não é chegar e fazer. É um processo longo, a peça precisa secar para podermos voltar arrematando", explica. Ao olhar para o futuro, Kleyton equilibra o pé no chão com a esperança de quem descobriu um novo talento.
"Pode ser um hobby para um final de semana com a minha família, mas só o tempo mesmo vai dizer como será profissionalmente falando. Se eu achar uma pessoa ou uma empresa que precise de alguém que entenda da arte, pode ser um futuro, sim”, acredita.
Referência e Inclusão
A PSME II destaca-se no cenário nacional pelo recorte específico de atendimento à população LGBTQIAPN+. Projetos como o ‘João de Barro’ reforçam a importância de políticas penais que considerem as especificidades desse público, oferecendo ferramentas que combatam o estigma e promovam a dignidade por meio do trabalho e da arte.
A certificação dos 15 alunos marca não apenas o encerramento de um curso, mas a entrega de peças que agora integram o acervo da unidade, provando que, assim como o João de Barro constrói seu abrigo com o que encontra na natureza, esses homens e mulheres estão reconstruindo suas histórias com o que há de mais resiliente em si mesmos.